
Aventuras debaixo d’água
Fevereiro de 2016
Passei quase todo o mês de fevereiro morando nas Filipinas, correndo descalço na praia & trabalhando no novo app do Gyroscope para iPhone. Claro que a viagem inteira foi registrada & quantificada, então aqui vão alguns destaques:

- Países: 2 (Filipinas, Japão)
- Aeroportos visitados: 5 (NRT, MNL, MPH, SJI, TAG)
- Horas online: 143,5
- Total de passos: 244.236 (média de 8.421)
- Corridas: 10 (23,8 milhas)
- Tempo em aviões: 10 horas
- Mergulhos: 20
- Profundidade máxima: 40 metros
- Dados móveis usados: 30 gigas (GLOBE + Softbank)
- Temperatura média: 88°F
Todo dia, conforme eu ia para lugares novos, contei com o app do Gyroscope para iPhone para garantir que eu estava trabalhando o suficiente, me mantendo ativo & no rumo certo. Vou compartilhar alguns dos relatórios semanais e mensais do app, com comentários sobre cada lugar & o que achei interessante.



Tudo começou no ano passado, quando o prédio alto em San Francisco onde eu morava foi vendido. Uma empresa comprou o edifício inteiro e decidiu tirar todo mundo de lá para reformar. O meu colega de apartamento achou um lugar parecido no prédio ao lado, mas só ficaria pronto em abril. A gente tinha que sair até fevereiro, então eu precisava achar um lugar novo por alguns meses.
Fiquei um tempo procurando no AirBnb, mas me assustei com o preço de tudo em SF, ainda mais com o Superbowl chegando. Ia ser tudo frio, cheio & caro. Comecei a me perguntar se não deveria ir para outro lugar por um tempo.
Alguns meses antes, tínhamos tornado a empresa um time totalmente distribuído. Sem trabalhar mais num escritório no South Park, eu estava curtindo a flexibilidade de trabalhar dos meus cafés favoritos. Com tudo acontecendo pelo Slack, em tese eu poderia trabalhar de qualquer lugar.
Eu sabia que era possível porque já tinha feito isso antes. O April Zero original foi construído quase todo enquanto eu viajava pela Tailândia & pelo Japão vivendo de uma mochila. Enquanto montava o Relatório de Viagens de 2015, percebi que isso tinha sido há muito tempo e que eu não saía do país havia mais de um ano. Na maioria das semanas, eu nem saía de um raio de alguns quarteirões do meu apartamento.

Meu amigo Dirk estava mergulhando nas Filipinas, postando fotos incríveis todo dia e me contando como era barato lá. Estava começando a chover e eu precisava desesperadamente de um pouco de sol. Perguntei ao Dirk se os cafés nas Filipinas tinham wifi bom.
Não pagar aluguel por alguns meses me daria um orçamento decente. Se eu gastasse menos de 100 dólares por dia, sairia mais barato do que viver em San Francisco. Alguns lugares nas Filipinas pareciam custar só uns 30 a 40 dólares a noite. Se eu conseguisse descobrir um jeito barato de chegar lá…
Hackeando a viagem internacional
Depois de passar um tempo no Kayak, na United e num monte de fóruns de viagem, decidi que voaria para Manila por um mês e depois voltaria para casa com uma parada em Tóquio. Com mais pesquisa e experimentação, acabei achando os voos por menos de 100 dólares no total, mais alguns pontos.
Quem disse que viajar para fora tinha que ser caro?
Os pontos deixaram o negócio ótimo, já que, sem eles, os mesmos voos teriam custado uns $5.000, caro demais. Em vez disso, usei uns 100.000 pontos para consegui-los, o que foi bem fácil de obter de graça. Eu tinha acumulado bastante depois de usar um cartão de crédito Chase Sapphire por alguns anos.
Simplesmente abrir um cartão novo e usar por alguns meses já te leva quase lá, já que eles oferecem bônus bem grandes de 50.000+ pontos para tentar convencer as pessoas a se inscrever.

Existem centenas de ferramentas e jeitos de pesquisar, mas acabei usando o site da United com a opção “search for award travel” marcada. Embora não seja tecnicamente de graça, o preço em dinheiro costuma acabar sendo só o mínimo de taxas & impostos.

Queria ter sabido disso alguns anos atrás, em vez de pagar milhares de dólares em passagens! Recomendo muito o cartão Chase Sapphire para juntar pontos & outras coisas grátis. A maioria dos meus amigos hoje tem o mesmo cartão, e quando saímos para jantar aparecem 5 ou 6 cartões azuis idênticos. Também é ótimo de usar viajando, sem taxas internacionais.
Você pode se inscrever aqui e ganhar um bônus de inscrição de 50.000 pontos. As ofertas de bônus são o jeito mais eficiente de juntar muitos pontos, mas exigem um gasto mínimo em alguns meses, então o timing é importante.
MacBook de 11"
Eu vinha usando um Air de 11" nos últimos anos. Era ótimo para viajar, mas eu ficava preocupado com ter um único ponto de falha. Decidi comprar um segundo laptop só por garantia, com a mesma configuração e o mesmo ambiente de desenvolvimento local. Se um deles morresse, caísse numa banheira de hidromassagem ou ficasse mal configurado, não seria o fim do mundo.
Mais importante ainda, eu também conseguiria produzir o dobro antes de precisar plugar e recarregar. Isso acabou sendo bem importante, porque tomadas se mostraram bem raras, muitas vezes só nos quartos de hotel.

SFO ✈ NRT
No fim de janeiro, todas as minhas coisas estavam empacotadas e prontas para ir para o depósito. Com uma passagem de 20 dólares para as Filipinas e dois laptops, eu estava pronto para embarcar numa nova aventura.
O primeiro voo tinha wifi e tomada ótimos, e acabei rendendo bastante. Tínhamos acabado de liberar uma versão inicial de amigos & grupos no Gyroscope, e havia um monte de melhorias a fazer agora que as pessoas estavam realmente usando e mandando feedback.


Parecia só mais um dia de trabalho, só que por acaso eu estava num avião. Parei no aeroporto de Narita para uma conexão curta e para me encher de sushi, e depois segui para Manila. Ouvi de muita gente que Manila não era um lugar tão legal, então fiquei só no aeroporto até o meu voo na manhã seguinte, que me levaria a Boracay.
Boracay
Eu ainda não tinha decidido onde ficaria, então pesquisei isso no caminho também. O meu plano era caminhar pela praia até achar um lugar que parecesse bom e então negociar um preço com eles. Alguns amigos tinham me mandado recomendações de lugares para conferir, então eu começaria por eles.
Acabei ficando numa praia famosa conhecida como White Beach, chamada assim por causa da areia branca e fina. Como já fiquei em muitas praias, posso garantir que areia boa é bem difícil de achar. A maioria das praias é bem grossa e também não muito plana, ruim para correr descalço. Boracay foi um encanto.



Eu adorava acordar todo dia por volta do nascer do sol e sair para correr. A praia ficava voltada para o oeste, então os fins de tarde tinham pores do sol maravilhosos. Eu estava trabalhando numa atualização grande do app de corrida, e era um ótimo lugar para testar tudo com frequência.
A nova atualização de corrida trazia avatares personalizáveis no lugar do logo, novas sobreposições de texto com a marca do Gyroscope e outros experimentos de crescimento.



Todo dia havia coisas escritas na areia na frente de cada um dos hotéis principais, com mensagens e desenhos complexos em torno da palavra “Boracay”. Achei a ideia de arte com data e hora muito intrigante. Isso tornava cada uma única, e não só algo que você poderia registrar uma vez.
Ao longo da semana, adicionamos um monte de melhorias ao app e finalmente enviamos a nova versão para a app store (ela já está lá como v2.0.2). Foi divertido trabalhar de vários lugares durante a semana: um Starbucks com vista para a praia, ou às vezes a própria praia.



O nosso próximo grande projeto eram os grupos no Gyroscope. Eles levariam o app de uma experiência single-player para algo em que você pode ser motivado por todos os seus amigos. Tínhamos acabado de melhorar a seção de Amigos, onde as pessoas podiam encontrar quem elas conhecem e adicionar como amigo, ganhando acesso ao perfil uma da outra. Adicionei umas 30 pessoas que eu conhecia e foi legal ver uma tela com a contagem de passos & a localização mais recente de todas elas.

Mesmo estando a milhares de quilômetros da maioria delas, eu sentia que tinha uma noção do que cada uma andava fazendo, mas de um jeito bem diferente de um feed do Twitter ou do Facebook. Ordenamos a lista de amigos por passos, para dar uma noção de como a sua atividade diária se comparava.



Como ir a praticamente qualquer lugar em Boracay exigia uma boa caminhada pela praia, eu estava dando muitos passos. Correr toda manhã ajudava a empurrar essa contagem ainda mais para cima. Com uma atualização do app entregue, muito sol e passos altos todo dia, a semana 1 começou bem.

Perspectiva
Para algumas pessoas, viajar para outros países é um jeito de desconectar e se afastar do trabalho. Isso não me interessa muito, não acho que eu conseguiria parar de construir coisas nem se quisesse. O que eu mais amo em viajar é a perspectiva que isso dá. Longe do seu apartamento, dos seus amigos, da sua rotina e das suas coisas, você é lembrado de quem você realmente é.
Quando você se dá conta de que está voando pelo céu dentro de uma caixa de metal, olhando lá para baixo para cidades minúsculas, é difícil não se inspirar e acreditar que quase tudo é possível.
A outra coisa que eu estava ansioso para viver era conviver com pessoas de outras culturas, vivendo vidas completamente diferentes. Depois de um tempo em San Francisco, você começa a ter a sensação de que praticamente todo mundo trabalha numa startup e se importa com as mesmas coisas. Fui rapidamente lembrado de que a maioria das pessoas nem sabe o que é uma startup, que dirá ter uma.
Mas foi interessante ver que quase todas elas, mesmo nas ilhas mais remotas, conheciam intimamente os produtos criados por startups: jogavam candy crush nos iPhones e viviam no Instagram. Elas só não faziam ideia de como, por que ou onde essas coisas foram criadas, o que faz sentido.
Foi interessante ver que quase ninguém na Ásia tinha Fitbit ou Apple Watch. Em vez disso, a maioria fumava. Todo mundo parecia ter iPhone, mas podem se passar anos ou décadas até a cultura de saúde e fitness chegar lá.
Quase tudo o que a gente tinha feito até então era pensado para a web no desktop, mas, enquanto nos preparávamos para lançar o novo app do Gyroscope para iPhone, eu queria entrar de verdade na mentalidade mobile para deixá-lo o melhor possível. Planejei transformar o celular no meu aparelho principal e viver de fato a partir dele, como o resto do mundo. Estar numa conexão 3G lenta deixou a experiência ainda mais real.
Percebi rapidamente que alguns apps, como o Instagram e o Twitter, continuavam funcionando muito bem e estavam otimizados para esse caso de uso. Outros, como o Slack, eram um pesadelo absoluto e claramente não estavam otimizados para gente com conexão lenta. O nosso app ficava no meio do caminho: decente em algumas partes e terrível em outras (como o processo de upload de fotos).
Muita gente do nosso setor não teve experiências muito diversas. Então não tem pontos suficientes para conectar e acaba chegando a soluções muito lineares, sem uma perspectiva ampla do problema. Quanto mais ampla a compreensão que alguém tem da experiência humana, melhor será o design que a gente vai ter.
Steve Jobs, Wired, fevereiro de 96

Balsa para Mindoro
Depois de uma semana em Boracay, era hora de ir para o próximo destino. Esse era o lugar que eu mais esperava, um resort chamado Apo Reef Club numa parte remota da ilha de Mindoro. O resort parecia bom, mas a atração principal eram as viagens de barco de 2 dias até o vizinho Apo Reef, um parque nacional com recifes e peixes supostamente lindos.
Os poucos mergulhos que fiz em Boracay não foram grande coisa, mas esse lugar deveria ser de outro mundo. Me inscrevi numa das viagens de mergulho e planejei ficar no resort trabalhando no resto do tempo.

Diferente de Boracay, não tinha praticamente mais nada por perto. Nenhum restaurante, nenhuma cidade, nenhuma outra pessoa. Até a vila mais próxima ficava a quilômetros dali. Em alguns dias, eu era o único hóspede do resort. Foi um jeito bom de se afastar de tudo por um tempo. Eles tinham redes, jardins e uma piscina, todos lugares convidativos para sentar e trabalhar nos novos grupos do Gyroscope.
O wifi era praticamente inexistente. Eu tinha comprado um chip da Globe antes de ir, com 30 gigas de dados. Cada dia eu usava mais ou menos um giga. A cada poucas horas, eu compartilhava a internet do celular, subia as minhas mudanças para o GitHub, checava e-mail e Slack e voltava ao trabalho. Sem nenhuma distração da internet, eu acabei ficando muito mais produtivo.


Ter dois laptops também se mostrou extremamente útil. Um ficava no quarto carregando enquanto eu trabalhava. Aí, quando precisava trocar, eu ia lá, fazia a troca e continuava de onde tinha parado.

Todo dia às 9h, o app do Gyroscope manda uma notificação com um resumo do dia anterior. É bem simples, mas acaba sendo um jeito poderoso de se manter no rumo e planejar o dia.
Se o dia anterior tinha poucos passos, eu garantia que iria correr e treinar naquele dia. Por outro lado, se o tempo online tinha sido pouco, eu sabia que precisava compensar e ia buscar o computador para começar.
Eu tenho o RescueTime instalado no computador, que se integra ao Gyroscope e fornece automaticamente números bem úteis sobre a minha produtividade. No celular, o Moves registra os lugares aonde eu vou e como me desloco entre eles.



Também estou viajando com o meu Fitbit Charge HR, que registra a minha frequência cardíaca e os meus passos todo dia. Prefiro ele ao Apple Watch em viagem porque só preciso carregar a cada 4 ou 5 dias, e a frequência cardíaca é um pouco mais detalhada. Embora ele seja tecnicamente só “resistente à água”, já levei uns 10 pés abaixo da superfície e parece funcionar bem. O meu relógio de mergulho, por outro lado, é à prova d’água até 2000 pés, um limite que eu não pretendo testar.

Um dia típico no Apo Reef começava por volta das 5 ou 6. Eu acordava e colocava os e-mails e as ligações em dia antes de todo mundo ir dormir lá em casa. Depois ia tomar café da manhã por volta das 7.



Não tinha muito mais o que fazer na ilha, então eu praticamente trabalhava o dia inteiro, com uma pausa curta para o almoço e uma hora livre perto do pôr do sol para correr e jantar. À noite eu relaxava e lia um capítulo ou dois de algum livro, e depois voltava a trabalhar por algumas horas antes de dormir.
Ao longo do mês, consegui dar conta de vários livros que estavam na minha lista de leitura:
- High Output Management
- Business Adventures
- The Song Machine
- 50 Places to Dive before you Die
- The Circle
- Travels, de Michael Crichton
- Japanese for Busy People (livro didático)
Ao longo do dia, eu checava o app do Gyroscope para ver como estava indo. Dava para ver os números mudando a cada poucos minutos e garantir que estavam no rumo certo.

Era basicamente um jogo de equilibrar o tempo trabalhando no computador com passos e exercício. O nosso app de corrida tornava divertido sair para trotar pela praia e colocar em dia as minhas metas de passos e de frequência cardíaca.


Ilha do Apo Reef
A viagem de barco em que me inscrevi saiu no dia 13, passou a noite fora e voltou na tarde seguinte. A gente faria 5 mergulhos no primeiro dia, dormiria no barco olhando as estrelas, faria mais 5 mergulhos no dia seguinte e depois voltaria. Tivemos que acordar às 5h para sair no horário. Por volta das 9h chegamos ao primeiro ponto de mergulho, um naufrágio.

O Apo Reef acabou sendo um dos lugares mais bonitos onde já estive, por uma combinação das ótimas condições (água quente e cristalina), das espécies magníficas (tartarugas e tubarões circulando livremente) e da ausência de qualquer outro ser humano por perto.
Fui colocado em dupla com o Ed, um divemaster de 22 anos que cresceu numa ilha vizinha e mergulhava desde os 14. A gente seguia o nosso próprio ritmo, mergulhando o máximo que dava (normalmente cerca de uma hora), depois subindo para um intervalo na superfície (mais ou menos outra hora) e então descendo de novo.
Tartarugas

A primeira tartaruga que encontramos eu passei nadando por ela. Alguém segurou a minha perna e apontou, e depois de alguns segundos percebi que o que parecia uma pedra era na verdade o casco de uma tartaruga grande. Quando cheguei mais perto para tirar uma foto, ela saiu nadando. Mas que emoção!

Muitos dos outros peixes, até os tubarões, eram bem tímidos. Dava para ver um, mas chegar perto o bastante para uma boa foto era quase impossível.
As tartarugas, no entanto, não pareciam nem ligar para os humanos. Muitas vezes consegui nadar bem até elas, e elas continuavam fazendo o que estavam fazendo. Isso rendeu ótimas fotos e vídeos.
Outras vezes elas iam se movendo tranquilamente e eu conseguia nadar ao lado delas. Era totalmente surreal. Elas claramente estão em casa ali, quase sem gastar energia, enquanto eu precisava de todas as minhas nadadeiras para tentar acompanhar.

Muitas vezes elas vinham acompanhadas de outros peixes na barriga. Tubarões e outros peixes grandes costumam aparecer com esses peixes limpadores como comitiva. É uma demonstração interessante de simbiose subaquática ver essas espécies sempre juntas, como o peixe-palhaço e a anêmona.

Mergulho profundo
A maioria dos mergulhos vai até uns 20 a 30 metros de profundidade (60–100 pés), subindo aos poucos ao longo de uma hora, com uma parada final de descompressão de segurança a 5 metros, e então a chegada à superfície. Só que muitos tubarões e outras espécies interessantes vivem bem mais fundo.
O meu mergulho mais profundo foi a 40 metros, batendo o meu recorde anterior de uns 32. Nessa profundidade, você está a mais de cem pés abaixo da superfície e sente o peso de 5 atmosferas terrestres acima.
Os meus lábios começaram a formigar um pouco, ou pela pressão ou pelo frio, e senti o que se chama de narcose por nitrogênio, que dá uma sensação parecida com estar bêbado, causada por mudanças no ar que chega ao cérebro. Fiz o sinal de polegar para cima para o Ed e começamos a subida (bem) lenta de volta aos 20 metros. Infelizmente não achamos nenhum tubarão lá embaixo, mas ainda viria muita coisa.

Na empolgação de descer, eu tinha esquecido completamente que a minha câmera estava no bolso! Uma câmera Fujifilm recondicionada, certificada para apenas 15 metros.
Eu não queria gastar um quarto do meu orçamento de viagem numa GoPro nova (a minha última tinha alagado alguns anos antes num mergulho em Santa Barbara), então comprei a câmera subaquática mais barata da Amazon. Embora fosse certificada só para 15 metros, eu desconfiava que ela aguentaria mais.
Acontece que ela sobreviveu até os 40, e fiquei bem impressionado com a construção e a qualidade das fotos, discutivelmente melhor do que o material de uma GoPro.
É difícil explicar a magia do mergulho para quem nunca experimentou. Cada mergulho parece que você está numa equipe de exploração de Star Trek, explorando mundos estranhos e desconhecidos para fazer contato com espécies alienígenas. Você nunca sabe o que esperar, mas alguma coisa empolgante costuma aparecer.
Tentei tirar algumas fotos & vídeos para ajudar a registrar e explicar algumas das coisas incríveis que vi. Aqui está um vídeo curto com alguns destaques…
Um mergulho comum nos Estados Unidos (como no Havaí ou na Califórnia) custa mais de $100, enquanto aqui eles saíam por só $10–20, e ainda com água bem mais quente. Tive muita sorte de poder trabalhar num lugar onde eu podia simplesmente pular num barco e fazer um mergulho gostoso à tarde. Em vez da pausa de almoço ou da reunião da tarde de sempre, eu estava passeando com tubarões.
Tubarões
A maioria das pessoas com quem falei tem medo de tubarão e me lembra cenas de Tubarão. Os tubarões dessa região não são os famosos brancos, são só tubarões de recife, que são bem menores e nada agressivos.

Normalmente eles saíam nadando assim que nos viam, o que dificultava até tirar uma foto boa. O jeito como se moviam pela água era muito gracioso e elegante. Os que encontramos eram tubarões de recife de ponta branca e de ponta preta. Tubarões-martelo e raposas-do-mar também já foram vistos por lá, mas não quando a gente foi.

Barracudas
Além de nadar ao lado das tartarugas, a experiência mais mágica da viagem foi quando encontramos um cardume de barracudas. Algumas espécies de barracuda, como a barracuda-grande, andam sozinhas ou em pares. Encontramos algumas assim, mas não eram lá muito empolgantes.

Outros tipos de barracuda andam em cardumes de centenas ou milhares. No fim de um mergulho bastante sem graça, quando estávamos prestes a fazer a parada de segurança e voltar à superfície, fomos cercados por um cardume desses.
Como eu já tinha encontrado barracudas antes (na bem batizada Barracuda Rock, na Tailândia), eu sabia o que esperar e não fiquei com medo de verdade, mesmo com elas nadando a poucos palmos de mim. Elas fizeram uma curva e acabaram nos circulando. Com barracudas por todos os lados, a única coisa a fazer era manter a calma e tirar boas fotos.

Diferente do meu encontro anterior, em que elas só passaram nadando, essas ficaram nos circulando por vários minutos. Depois da terceira ou quarta volta, comecei a ficar um pouco preocupado. Isso é algum tipo de ritual pré-almoço? Elas gostavam de comida indiana? Enquanto davam as voltas, parecia que cada uma delas estava olhando bem para mim.

Depois de alguns minutos ali, elas provavelmente enjoaram da gente e decidiram ir para outro lugar. Eram milhares, então não ficou nada claro quem estava no comando nem como elas tomavam decisões coletivas, mas foi fascinante ver todas de repente começarem a espiralar por baixo de nós e sumirem nadando poucos segundos depois.

Coisinhas pequenas
No começo, quanto maiores os bichos, mais empolgados a gente ficava. Uma saída não era realmente boa se você não encontrasse algum tubarão ou tartaruga grande. “Viu alguma coisa boa?” “Nada, só umas coisinhas pequenas.”
Mas, por volta da décima tartaruga avistada, elas começaram a parecer todas iguais. Eu nem ligava a câmera, a menos que ela estivesse fazendo algo especial. Foi interessante, e um pouco preocupante, ver com que rapidez as coisas passaram de exóticas a banais, para praticamente todo mundo do grupo. Parece que os humanos são fortemente programados para valorizar as coisas pela raridade delas, e se acostumam rápido até com as paisagens mais magníficas.
Mas a gente estava cercado de beleza por todo lado. Só demorou um tempo para me acalmar e reparar nela de verdade. Uma das minhas coisas favoritas virou achar nudibrânquios. Eles são minúsculos, uma ou duas polegadas no máximo, mas de cores muito vivas, dá para achar se você olhar bem de perto.

Nudibrânquios
Mesmo num mundo de cores brilhantes e deslumbrantes, os nudibrânquios realmente se destacam pelos tons vivos. É como se alguém tivesse subido a saturação para 110% nesses bichinhos.
Fotografá-los traz desafios próprios. Como são muito pequenos, você precisa chegar bem perto, o que exige controle perfeito da sua flutuabilidade. Pairando a uns dois centímetros acima, você precisa acertar o tempo exato da câmera, da corrente, da respiração e do bicho.

A maioria deles tem duas anteninhas na cabeça, como os primos caracóis de terra. Mas muitos também têm outros tipos de plumagem saindo de várias partes.

Alona Beach
Depois de algumas semanas de mergulho & solidão produtiva no Apo Reef Club, o destino final nas Filipinas foi uma ilha chamada Panglao. Eu ficaria num resort numa faixa de areia chamada Alona Beach. Parecia com Boracay, com vários restaurantes e gente caminhando pela praia, mas bem menor e menos cheia. O wifi de lá era para ser bem bom, o que me animava.




A faixa inteira de praia tinha menos de uma milha, então correr ali significava dar várias voltas.

Toda manhã, eu ia ao café da manhã do hotel às 7h e fazia uma ligação rápida por Skype com o Mahdi antes de ele ir dormir no Canadá.



Depois eu passava o resto do dia em vários cafés e cantos perto do resort. A nova página de grupos estava quase pronta e eu estava muito animado para liberar a beta para alguns dos nossos usuários Pro.

O Foursquare me levou a um café legal chamado Buzzz, com bebidas orgânicas com sabor de mel. Fui trabalhar de lá na maioria dos dias. Eles serviam as vitaminas de manga mais deliciosas do mundo. O resto do tempo foi trabalhando na piscina ou no bar do hotel, que também servia vitamina de manga.

Tentei fazer alguns mergulhos com a operadora local, mas não tiveram nada de espetacular. A visibilidade não era boa, o barco tinha gente demais e não apareceu nem um tubarão. Resumindo, eu tinha ficado mal-acostumado pelo Apo Reef.
Uma manhã esqueci de passar repelente e, quando fui tomar café da manhã, estava coberto por uma dúzia de picadas de tipos diferentes. Enquanto isso, os meus óculos de sol tinham literalmente derretido e se desmanchado. A internet lenta e a espera para tudo carregar começaram a pesar. Depois de 25 dias, decidi que estava cansado do calor, da areia, dos insetos por toda parte. Era hora de ir embora.

O meu plano tinha sido ficar nas Filipinas até enjoar da natureza, depois ir a Tóquio até enjoar de comida boa e então voltar para San Francisco.
Por sorte, o meu voo para Narita era no dia seguinte. Timing perfeito.
Continua…